Morre na prisão ‘Sicário’, operador de milícia privada de Vorcaro

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O investigado Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, de 43 anos, apontado pela Polícia Federal como o chefe operacional de uma milícia privada a serviço do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, morreu na noite desta quarta-feira (4) em Belo Horizonte. Mourão havia sido preso horas antes na terceira fase da Operação Compliance Zero, autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal. O episódio, que já mobiliza uma investigação interna da PF sobre as circunstâncias da morte sob custódia, expõe mais uma camada de um dos maiores escândalos financeiros do país.

Segundo a PF, Mourão tentou suicídio na cela da superintendência da corporação em Minas Gerais. Agentes prestaram socorro imediato, e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado, encaminhando-o ao Hospital João XXIII. Apesar dos esforços, ele não resistiu e teve a morte encefálica reconhecida pela equipe médica. A corporação informou que as imagens das câmeras de segurança serão entregues ao gabinete do ministro relator – um procedimento que, embora padrão, ganha contornos delicados quando se trata de um preso cujo silenciamento pode comprometer investigações em curso no STF.

Conhecido nos diálogos interceptados pela PF como “Sicário” – termo que designa assassino de aluguel nas dinâmicas do crime organizado periférico –, Mourão era o responsável por coordenar ações de vigilância, coleta ilegal de informações e intimidação de alvos considerados adversários de Vorcaro. O codinome, importado de realidades marcadas pela violência nas periferias, agora aparece sofisticado por uma estrutura financeira bilionária: segundo as investigações, o grupo, apelidado internamente de “A Turma”, recebia cerca de R$ 1 milhão por mês para executar essas tarefas. O valor, muito superior ao que movimenta a criminalidade comum, revela a escala com que a elite econômica pode financiar a violência quando se sente ameaçada.

As mensagens obtidas pela polícia expõem ordens diretas de Vorcaro a Mourão para monitorar, ameaçar e até agredir fisicamente jornalistas, ex-funcionários e outras pessoas. Em uma das conversas, o banqueiro teria ordenado: “Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”, em referência ao colunista Lauro Jardim, de O Globo. Em outro diálogo, Vorcaro reclama de uma empregada e ordena: “Tem que moer essa vagabunda”. Os trechos escancaram a naturalização da violência como ferramenta de resolução de conflitos no interior da elite econômica – métodos que, quando empregados por jovens negros nas periferias, resultam em execuções sumárias e penas desproporcionais.

A PF também aponta que Mourão usava credenciais de terceiros para acessar indevidamente bases sigilosas da própria PF, do Ministério Público Federal e de organismos internacionais como FBI e Interpol. As informações eram usadas para antecipar investigações e neutralizar críticas ao grupo, evidenciando um nível de sofisticação e capilaridade institucional incomum. O caso, que já acumula desdobramentos no STF, na Polícia Federal e no Banco Central, expõe um rombo potencial ao Fundo Garantidor de Crédito estimado em R$ 47 bilhões, além de conexões com fundos de previdência de servidores públicos do Rio de Janeiro, Amapá e Amazonas – um prejuízo que, em última análise, será suportado pelo conjunto da sociedade.

A defesa de Mourão informou que esteve com ele durante a tarde e que ele “se encontrava em plena integridade física e mental”. Os advogados disseram ter conhecido o incidente por meio da nota da PF e cobraram esclarecimentos oficiais do hospital, que ainda não havia confirmado formalmente o óbito à família até o fechamento desta edição. Já a defesa de Vorcaro nega as acusações e afirma que o empresário “sempre esteve à disposição das autoridades, colaborando de forma transparente”.

Especialistas ouvidos pela imprensa avaliam que a morte de Mourão silencia uma peça-chave para a elucidação dos crimes atribuídos à organização, especialmente no que diz respeito à execução das ameaças e à invasão de sistemas sigilosos. A perda dessa testemunha privilegiada, em um contexto de morte sob custódia, levanta questões sobre a igualdade de tratamento no sistema prisional brasileiro: enquanto a morte de um homem branco ligado à alta finança mobiliza autoridades e manchetes, jovens negros continuam a morrer diariamente nas mesmas dependências do Estado sem que seus nomes sequer sejam registrados pela grande imprensa. O episódio, mais do que um capítulo do escândalo Master, escancara o contraste entre os corpos que importam e os que são deixados à margem – dentro e fora das celas.

Fontes: Agência Brasil, BBC News Brasil, DW, R7, CNN Brasil

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