{"id":2193,"date":"2026-07-02T10:15:23","date_gmt":"2026-07-02T13:15:23","guid":{"rendered":"https:\/\/blacknewsbrasil.com.br\/?p=2193"},"modified":"2026-07-02T10:15:23","modified_gmt":"2026-07-02T13:15:23","slug":"2-de-julho-a-bahia-toma-as-ruas-para-celebrar-a-independencia-que-o-brasil-esqueceu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blackmidia.com.br\/2-de-julho-a-bahia-toma-as-ruas-para-celebrar-a-independencia-que-o-brasil-esqueceu\/","title":{"rendered":"2 de Julho: a Bahia toma as ruas para celebrar a Independ\u00eancia que o Brasil esqueceu"},"content":{"rendered":"<p>O dia ainda nem tinha clareado quando o povo j\u00e1 ocupava as ruas. \u00c0s 6h da manh\u00e3, a tradicional alvorada com queima de fogos no Largo da Lapinha anunciou o in\u00edcio oficial das celebra\u00e7\u00f5es pelos 203 anos da Independ\u00eancia da Bahia. O 2 de Julho chegou e, com ele, a certeza de que, na Bahia, a Independ\u00eancia n\u00e3o se comemora apenas com discursos oficiais. Ela \u00e9 vivida nas ruas, na mem\u00f3ria e no orgulho de um povo.<\/p>\n<p>Aos 203 anos da data que consolidou a Independ\u00eancia do Brasil, Salvador amanheceu enfeitada. Bandeiras tremulavam nas janelas, filarm\u00f4nicas afinavam seus instrumentos e milhares de baianos se preparavam para acompanhar aquele que \u00e9 considerado o maior desfile c\u00edvico popular do pa\u00eds. Um desfile que, diferente do 7 de Setembro, n\u00e3o coloca um imperador no centro da narrativa. Coloca o povo.<\/p>\n<h3>Um cortejo que come\u00e7a no ch\u00e3o da f\u00e9<\/h3>\n<p>\u00c0s 8h, o hasteamento das bandeiras por autoridades, com execu\u00e7\u00e3o do Hino Nacional pela Banda de M\u00fasica da Marinha do Brasil, deu in\u00edcio \u00e0s cerim\u00f4nias oficiais. Mas o verdadeiro cora\u00e7\u00e3o da festa estava no Largo da Lapinha, onde os tradicionais carros do <strong>Caboclo<\/strong> e da <strong>Cabocla<\/strong> aguardavam para iniciar o percurso hist\u00f3rico at\u00e9 o Campo Grande.<\/p>\n<p>O Caboclo e a Cabocla n\u00e3o representam generais nem governantes. Representam o povo. S\u00e3o s\u00edmbolos da participa\u00e7\u00e3o de ind\u00edgenas, mesti\u00e7os, negros e mulheres na guerra que expulsou definitivamente as tropas portuguesas da Bahia em 2 de julho de 1823.<\/p>\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o come\u00e7ou j\u00e1 em 1824, quando veteranos das batalhas desfilaram pelas ruas de Salvador comemorando a vit\u00f3ria. Dois s\u00e9culos depois, o cortejo continua sendo uma das maiores express\u00f5es da identidade baiana, reunindo baianos e turistas em uma demonstra\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia e identidade.<\/p>\n<p>Com o passar do tempo, o Caboclo deixou de ser apenas um s\u00edmbolo c\u00edvico para se tornar tamb\u00e9m um s\u00edmbolo sagrado. Essa aproxima\u00e7\u00e3o entre mem\u00f3ria c\u00edvica e religiosidade popular \u00e9 uma das caracter\u00edsticas que tornam o 2 de Julho \u00fanico no calend\u00e1rio brasileiro.<\/p>\n<p>A forte presen\u00e7a dos terreiros de candombl\u00e9 na Bahia fez com que a figura do Caboclo fosse naturalmente incorporada ao imagin\u00e1rio religioso afro-baiano. At\u00e9 hoje, milhares de pessoas levam flores, frutas, velas e fazem ora\u00e7\u00f5es diante dos carros do Caboclo e da Cabocla, transformando o Campo Grande em um espa\u00e7o onde hist\u00f3ria, espiritualidade e identidade caminham juntas.<\/p>\n<h3>A religi\u00e3o que a hist\u00f3ria esqueceu: o candombl\u00e9 na Independ\u00eancia<\/h3>\n<p>A narrativa oficial costuma apresentar a Independ\u00eancia como um ato pol\u00edtico ocorrido \u00e0s margens do Ipiranga. Na Bahia, ela foi uma guerra. Uma guerra travada por trabalhadores, mulheres, ind\u00edgenas, pessoas negras livres e escravizadas que enfrentaram tropas portuguesas durante quase um ano at\u00e9 a vit\u00f3ria definitiva.<\/p>\n<p>Nesse contexto, as tradi\u00e7\u00f5es religiosas de matriz africana j\u00e1 faziam parte da vida cotidiana da popula\u00e7\u00e3o negra baiana. A espiritualidade funcionava como elemento de identidade, resist\u00eancia e fortalecimento coletivo diante da viol\u00eancia do sistema colonial.<\/p>\n<p>A f\u00e9 nos orix\u00e1s, nos ancestrais e, posteriormente, nos caboclos ajudou a preservar comunidades que encontravam nesses espa\u00e7os n\u00e3o apenas religiosidade, mas tamb\u00e9m acolhimento, pertencimento e coragem para enfrentar um cotidiano marcado pela escravid\u00e3o e pela repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, ao prestar homenagens aos caboclos durante o cortejo do 2 de Julho, muitos baianos reafirmam uma mem\u00f3ria constru\u00edda n\u00e3o apenas pelos documentos oficiais, mas tamb\u00e9m pelas tradi\u00e7\u00f5es populares que atravessaram gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<h3>As hero\u00ednas que o pa\u00eds insiste em n\u00e3o conhecer<\/h3>\n<p>O desfile do 2 de Julho n\u00e3o celebra apenas batalhas. Celebra pessoas.<\/p>\n<p>Entre elas est\u00e1 <strong>Maria Felipa de Oliveira<\/strong>, mulher negra, marisqueira e l\u00edder popular que organizou cerca de 200 mulheres \u2014 em sua maioria negras \u2014 para enfrentar tropas portuguesas em Itaparica, tornando-se um dos maiores s\u00edmbolos da resist\u00eancia baiana. Durante mais de um s\u00e9culo, sua hist\u00f3ria permaneceu praticamente invis\u00edvel nos livros did\u00e1ticos antes de receber reconhecimento oficial.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 lembrada <strong>Joana Ang\u00e9lica<\/strong>, abadessa do Convento da Lapa, assassinada ao tentar impedir a invas\u00e3o portuguesa ao convento.<\/p>\n<p>E <strong>Maria Quit\u00e9ria<\/strong>, que se alistou disfar\u00e7ada de homem no Ex\u00e9rcito brasileiro e se tornou uma das combatentes mais respeitadas da campanha militar.<\/p>\n<p>Enquanto muitas dessas mulheres permaneceram por d\u00e9cadas \u00e0 margem da hist\u00f3ria oficial, seus nomes nunca deixaram de ser lembrados pelo povo baiano.<\/p>\n<h3>Uma data que finalmente ganha o pa\u00eds<\/h3>\n<p>O 2 de Julho de 2026 tamb\u00e9m marca um reconhecimento institucional importante.<\/p>\n<p>Neste ano, o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva sancionou a lei que transfere simbolicamente a capital federal para Salvador durante as celebra\u00e7\u00f5es da Independ\u00eancia da Bahia.<\/p>\n<p>A medida, aprovada pelo Congresso Nacional, n\u00e3o altera a sede administrativa da Rep\u00fablica, mas possui forte valor hist\u00f3rico e simb\u00f3lico ao reconhecer a import\u00e2ncia da campanha militar travada na Bahia entre 1822 e 1823 para a consolida\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia brasileira.<\/p>\n<p>Como resume o historiador S\u00e9rgio Guerra Filho, professor da UFRB:<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Popularizar o 2 de Julho como marco da Independ\u00eancia \u00e9 fazer o brasileiro se reconhecer dentro da pr\u00f3pria hist\u00f3ria. O Sete de Setembro n\u00e3o d\u00e1 conta da diversidade de experi\u00eancias vivenciadas nas prov\u00edncias.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n<h3>A Lente BNB revela<\/h3>\n<p>Enquanto o 7 de Setembro celebra o gesto de um imperador \u00e0s margens do Ipiranga, o 2 de Julho celebra a mobiliza\u00e7\u00e3o de um povo inteiro nas ruas de Salvador.<\/p>\n<p>Foi na Bahia que negros, ind\u00edgenas, mulheres, trabalhadores e militares transformaram uma declara\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em independ\u00eancia efetiva, expulsando definitivamente as tropas portuguesas do territ\u00f3rio brasileiro.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m foi na Bahia que as tradi\u00e7\u00f5es afro-brasileiras ajudaram a preservar a mem\u00f3ria coletiva, fortalecer comunidades negras e transformar a Independ\u00eancia em um patrim\u00f4nio vivo da cultura popular.<\/p>\n<p>A transfer\u00eancia simb\u00f3lica da capital para Salvador representa um reconhecimento importante, ainda que tardio, da centralidade da Bahia na constru\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n<p>Talvez nenhuma outra data do calend\u00e1rio nacional explique t\u00e3o bem a dist\u00e2ncia entre a hist\u00f3ria ensinada e a hist\u00f3ria vivida. Enquanto boa parte do pa\u00eds ainda associa a Independ\u00eancia apenas ao Ipiranga, a Bahia continua lembrando que a liberdade precisou ser conquistada nos campos de batalha, nas ruas e na resist\u00eancia de um povo diverso.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que, todos os anos, o 2 de Julho deixa de ser apenas uma celebra\u00e7\u00e3o baiana para se afirmar como um patrim\u00f4nio da mem\u00f3ria brasileira.<\/p>\n<hr \/>\n<h3>Fontes consultadas<\/h3>\n<p style=\"font-size: 0.75rem; color: #555;\"><a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/ba\/bahia\/noticia\/2026\/06\/30\/confira-a-programacao-das-celebracoes-do-2-de-julho-em-salvador.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">G1 BA: Confira a programa\u00e7\u00e3o das celebra\u00e7\u00f5es do 2 de Julho na Bahia<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/atarde.com.br\/salvador\/liberdade-lota-cedo-no-inicio-das-celebracoes-do-2-de-julho-em-salvador-1393875\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">A TARDE: Liberdade lota cedo no in\u00edcio das celebra\u00e7\u00f5es do 2 de Julho em Salvador<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/aratuon.com.br\/politica\/2-de-julho-alvorada-de-fogos-abre-celebracoes-pelos-203-anos-da-independencia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Aratu On: 2 de Julho: alvorada de fogos abre celebra\u00e7\u00f5es pelos 203 anos da Independ\u00eancia<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/bahiaeconomica.com.br\/wp\/2026\/07\/02\/bahia-comemora-o-2-de-julho-veja-a-programacao\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bahia Econ\u00f4mica: BAHIA COMEMORA O 2 DE JULHO. VEJA A PROGRAMA\u00c7\u00c3O<\/a><br \/>\n<a href=\"https:\/\/www.bahianoticias.com.br\/noticia\/318480-jogo-do-brasil-antecipa-volta-da-cabocla-do-2-de-julho-no-sabado-programacao-inclui-show-de-mariene-de-castro\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bahia Not\u00edcias: Jogo do Brasil antecipa volta da Cabocla do 2 de Julho no s\u00e1bado<\/a><\/p>\n<p><strong>BlackNews BRASIL \u2013 Um ecossistema de Jornalismo Negro e Independente.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Salvador amanheceu em festa nesta quinta (2) para celebrar os 203 anos da expuls\u00e3o dos portugueses da Bahia. Uma data de f\u00e9, luta e orgulho negro que o Brasil insiste em desconhecer.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2201,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[83,84,110],"tags":[142,168,175,179,253,265,290,291,339,428],"tmauthors":[],"class_list":["post-2193","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-cultura","category-diaspora","category-sem-categoria","tag-2dejulho","tag-blacknewsbrasil","tag-caboclo","tag-candomble","tag-independenciadabahia","tag-joanaangelica","tag-mariafelipa","tag-mariaquiteria","tag-salvador","tag-bahia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blackmidia.com.br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2193","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blackmidia.com.br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blackmidia.com.br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blackmidia.com.br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blackmidia.com.br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2193"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blackmidia.com.br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2193\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blackmidia.com.br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2201"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blackmidia.com.br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2193"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blackmidia.com.br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2193"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blackmidia.com.br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2193"},{"taxonomy":"tmauthors","embeddable":true,"href":"https:\/\/blackmidia.com.br\/wp-json\/wp\/v2\/tmauthors?post=2193"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}